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As intermitências da morte

de José Saramago

Companhia das letras - 2005



"No dia seguinte, ninguém morreu".

O que aconteceria se as pessoas parassem de morrer? No país desse romance de Saramago isso acontece. Por meses. E o que pode parecer um grande alívio transforma-se em pesadelo. Como lidar com a suspensão dessa obviedade que é a morte - a única coisa certa da vida? Saramago descreve em minúcias as consequências do impensável - ele, que teve por ofício a burocracia, o faz com mestria. Só ele para fazê-lo. (Só ele não - também Kafka, que teve esse mesmo ofício). A morte é moeda de mercado - assim como sua ausência.

Mas a morte, assistindo a tudo, manda um aviso de como passará a proceder. O aviso é assinado pela morte. E ela adverte que a Morte, maiúscula, não a conhecemos - não sabemos distinguir uma da outra, não sabemos o que fazer com a instabilidade das palavras. O narrador conversa com o leitor, faz um pacto com ele para na frase seguinte deixá-lo à deriva. Saramago.

Encontramos nesse romance um Saramago esperançoso, belíssimo. Pois a morte é perturbada por um erro que a leva à música. O erro é o que talvez melhor defina nossa humanidade. A morte erra, e repete seu erro, e nessa repetição se humaniza também. A esperança mora no erro - e na arte, essa que nos provoca de tal maneira que escapa às definições, à burocracia. À morte. Pois a vida cabe num estudo de 58 segundos de Chopin:

"...o que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naqueles cinquenta e oito segundos de música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa ainda tivesse ficado por dizer."

Saramago. Saramago.

As gentes do @pactoliterario foram companhia nessa leitura imprescindível. Obrigada por tanto.



abril de 2022




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