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Diz o ditado

Gosto muito dos ditos populares. E, sem querer puxar a brasa para o meu assado, me considero privilegiada por lembrar muitos deles – há quem diga que tenho memória de elefante. É exagero. E como acredito que cabeça não foi feita só para usar chapéu, tento usar os ditados para facilitar a comunicação, esse processo cotidiano e árduo de tentar que não se confundam alhos com bugalhos, que não tenhamos conversas nas quais enquanto um grita o outro não ouve. O ideal seria que fôssemos todos bons entendedores, aqueles para quem meia-palavra basta. Mas não somos. E sabemos que quem não se comunica se trumbica.


Quanto mais maduros (para não dizer velhos!) ficamos, mais damos razão à sabedoria popular. Deixamos de olhar enviesado para a ideia de que devagar se vai ao longe. Ficamos convencidos de que a expectativa é a mãe da decepção, de que preguiçoso trabalha dobrado e de que a pressa é inimiga da perfeição. Testemunhamos, com o passar de nossos próprios dias, que o diabo é sábio por ser velho, e não por ser diabo. Por vezes lamentamos que a sabedoria se acompanhe de tantas rugas e cabelos brancos, mas é impossível fazer uma omelete sem quebrar os ovos. E vamos colecionando esses pequenos grandes saberes, que tentamos transmitir aos mais novos, nem sempre com sucesso. Gato escaldado tem medo de água fria, talvez seja por isso que os mais velhos, de tão escaldados, vão fazendo uso dos conselhos ouvidos, tentando passá-los adiante. Ainda que se saiba que se conselho fosse bom a gente não dava, vendia. Seguro morreu de velho.


A princípio, os ditados podem facilitar nossas conversas, nossa vontade de transmissão. Mas, antes tarde do que nunca, vale lembrar que toda regra tem sua exceção. Um ditado mal empregado pode causar confusão: ao tentar fazer um tico-tico, acaba-se fazendo um urubu. E em seguida se constata que o que não tem remédio, remediado está, e não adianta chorar o leite derramado. Mesmo que a pessoa tenha tido a melhor das intenções, aquelas das quais o caminho do inferno é cheio. Ao falar, todo o cuidado é pouco, e é sempre melhor prevenir do que remediar: quem diz o que quer ouve o que não quer, e em boca fechada não entra mosca. Não é prudente sair por aí a jogar palavras ao vento, como se não houvesse amanhã. Até porque, quem semeia vento, colhe tempestade.


Mas a vida fica difícil se a gente tiver que cuidar demais o que diz, pois desde pequenos ouvimos também que quem tem boca vai a Roma. Quem não arrisca não petisca, e seguidamente falamos sem pensar. E então vem aquele “se arrependimento matasse...!”. É grande a tentação de jogar verde para colher maduro, de contar aquela pequena e inofensiva mentira, mesmo sabendo que ela tem pernas curtas. E o ímpeto de afirmar que dessa água não beberei? E o péssimo costume de fazer aquela emenda que sai sempre pior que o soneto? Nesses casos, resta tentar fazer do limão uma limonada...


Por ser psicanalista, tenho o dia-a-dia povoado pela palavra, e conheço muito de perto sua importância e seus efeitos bons e ruins: ela é faca de dois gumes. São cavacos do ofício. Lidar com a palavra nos impele a buscá-la, sem jamais fugir dela como o diabo da cruz. Para o lado que ela corre, a gente dispara. Ela diz mata, e a gente diz enforca. Andamos colados nela como merda em tamanco. Lidar com a palavra nos faz querer escutá-la com ouvidos de tuberculoso, fitá-la com olhos de lince. Amá-la a cada vez como se fosse a última.


Publicada no Jornal Sul21, em outubro de 2016.


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