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O parque das irmãs magníficas

por Camila Sosa Villada

tradução Joca Reiners Terron

Tusquets editores - 2021




Assim inicia o prefácio de Juan Form: "Aos quatro anos, quando Camila Sosa Villada ainda era Cristian Omar, aprendeu a escrever seu nome completo, mas se negava a fazer xixi em pé. Seu pai passou do orgulho à fúria e lhe ofereceu, ali mesmo, um panorama instantâneo do que teria de enfrentar pelo resto da vida se não se dobrasse ao mando paterno, ao mando cultural: vergonha, medo, intolerância, desprezo e incompreensão. A futura Camila não se dobrou, e começaram os castigos, as horas trancadas em seu quarto, o extraordinário processo que se iniciou ali dentro. "Meu pai e minha mãe sempre souberam o que eu fazia nesse confinamento: escrevia e me vestia de mulher. Isso os expulsou do meu mundo e me salvou do seu ódio: meu romance comigo mesma, a minha mulher proibida."


Camila Sosa Villada nasceu em 1982 em uma pequena cidade na Argentina. Mudou-se para Córdoba para fazer faculdade, e então conheceu o Parque Sarmiento e nele outras travestis como ela, com quem passou a conviver em irmandade. Ali pode ser acolhida por outras que falavam a sua língua, numa espécie de oásis de cumplicidade e solidariedade. Conheceu também a prostituição, a dura vida das travestis, submetidas a todo tipo de risco e violência. Na época, escrevia um blog que foi destruído contra sua vontade - no entanto, reencontrou suas próprias palavras anos depois, salvas por um leitor anônimo, quando já seguia a carreira de atriz. Este livro, O parque das irmãs magníficas (cujo título em espanhol é Las Malas) foi originado a partir desse reencontro.


Testemunhar o percurso de Camila, sua infância e sua transformação, é uma experiência ímpar, tão dolorosa quanto magnífica. O livro é belíssimo, pleno de metáforas preciosas, que nos conduz a momentos de dor e encantamento, que se dá tanto pela forma de narrar quanto por elementos de realismo mágico, com seres que transitam entre o humano e o animal. Talvez essa seja uma das chaves de leituras possível desse romance, a formulação da pergunta sobre nossa humanidade - para o bem e para o mal.


"O desejo de morrer vem desde muito criança, um prematuro fantasma do suicídio com quem me entendo desde pequeno. Sei que está ali, identifico-o com clareza, consigo distingui-lo entre todos os desejos possíveis, ainda sem saber que me livrarei dele ao me converter em travesti, que, ao contrário do que foi anunciado, a salvação será um par de saltos e um velho batom cor-de-rosa."


" ' Somos como um entardecer sem óculos de sol', dizia Tia Encarna. 'Nosso fulgor cega, ofusca aqueles que olham para nós e os assusta'.

Com certeza, mas sempre podemos ir embora. E nosso corpo vai conosco. Nosso corpo é nossa pátria."




julho de 2022


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