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Solução de dois Estados

por Michel Laub

Companhia das Letras - 2020






Quis ler Solução de dois Estados desde o seu lançamento, mas adiei. Sabia de antemão da qualidade do texto, por ser do Michel Laub, mesmo autor dos excelentes Diário da queda (2011) e O tribunal da quinta-feira (2016). Alguns adiamentos na vida são bem-vindos, gosto de pensar que aprendo com meu inconsciente, e então respeito quando deixo leituras (e outras coisas) para depois. O depois muitas vezes se torna uma boa hora. E foi assim com esse livro, que li em novembro último para o encontro do Pacto Literário.


O romance tem três personagens, nenhum narrador. Brenda, cineasta alemã, entrevista dois irmãos, Alexandre e Raquel, para um documentário que está produzindo. Os dois últimos protagonizam uma briga acirrada, tornada pública por um episódio violento. O enredo vai se mostrando através das entrevistas de Brenda, que fala com um e outro separadamente. É pelas respostas (agressivas) dos dois que vamos conhecendo essas figuras, que vamos entendendo em que águas estamos mergulhando. Turvas.


A estrutura do texto é tão interessante quanto seu conteúdo, e essa é uma das muitas riquezas do livro. Os capítulos são divididos como se fossem seções de materiais selecionados para o documentário, assim, por não termos um narrador, e sim material coletado, podemos ler cada personagem em suas próprias palavras, bem como depoimentos de outros envolvidos no problema. O escritor nos conduz por um caminho difícil: escutar as versões de cada irmão tentando resistir à tentação de tomar partido de um ou de outro e, principalmente, nos perguntando qual será a solução - se é que ela existe.


Alexandre e Raquel representam duas versões do discurso de ódio tão disseminado atualmente em nosso país. Os dois têm suas razões, que o escritor constrói e expõe fartamente, nos remetendo à história pessoal de ambos. Nelas encontramos o berço da mágoa e do ressentimento. As histórias se misturam à história do Brasil, às crises econômicas, às perdas e ganhos de uma classe média agarrada à própria ascensão - e temerosa diante da ameaça de sua queda. O escritor é hábil ao mostrar a constituição do discurso de ódio na articulação entre essas histórias - e nisso a própria cineasta não fica de fora. Por ser estrangeira e entrevistadora, ela parece inicialmente ser uma observadora externa, mas com o decorrer da narrativa percebemos que ela também tem um lugar próprio na história, ela não está fora, mas dentro. Também aí mora a genialidade do escritor: afinal, tem alguém de fora? Ou estamos todos dentro dessa grande confusão?


O nome do documentário de Brenda é: Solução de dois Estados?. Romance e documentário têm quase o mesmo título - o ponto de interrogação não passa despercebido. Há solução para as diferenças entre os dois irmãos? Há conciliação possível e, mais que isso, é preciso que haja? Será que o esforço da conciliação não acaba gerando ainda mais violência? Michel Laub trata de maneira extremamente inteligente esse tema tão difícil. E não se protege na escolha dos elementos que usa para formular críticas contundentes ao modus operandis de nossos sistemas político, financeiro, religioso e de produção cultural. Capitalista.


“O que você faz com o que fizeram de você?” Alexandre e Raquel se fazem a mesmíssima pergunta. A resposta é diferente para cada um, mas tem em comum a ausência de um pensamento coletivo. A vida privada dos personagens é palco onde tudo se encena, o ringue onde acontece o vale-tudo.


Solução de dois Estados é um baita livro. Michel Laub é um baita escritor.


dezembro de 2022





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