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Aracy

  • marietamadeira
  • 21 de out.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 22 de out.

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- O que tu quer comer?


- Rabanada.


- Não prefere uma torrada de queijo, Marieta?


- Não.


- Tem certeza?


Afirmei que sim acenando a cabeça, talvez um pouquinho envergonhada por expor tão irredutivelmente minha vontade – mas eu sabia que pra ela eu podia. Lembro desse dia, a pergunta da vó marcada por certa hesitação – talvez ela não estivesse com muita vontade de sujar a cozinha (impecavelmente limpa) fazendo fritura. No entanto, fez as rabanadas que eu adorava. Na minha memória eu gostava de tudo o que ela fazia naquele fogão. Na minha memória, vejo o vô sentado num banco no canto da cozinha, eu sentadinha e atenta na copa, a vó de pé cozinhando e conversando com ele. Na minha memória, a comida da minha avó era a melhor do mundo: creme de queijo, canja de galinha, omelete, massa com molho de guisadinho, arroz com galinha, sarrabulho, galinha ao molho pardo, peixe a escabeche, doce de leite, doce de ovos com merengue, creme de baunilha, doce de abóbora. Na minha memória o balcão da cozinha da casa da vó tem abóbora de pescoço numa bacia (de molho na cal pra ficar com a casca grossinha) e no fogão borbulha doce de leite, o ar morno perfumado de cravo e canela.


Ao escrever e lembrar, não contenho um sorriso. Por ter tão boas lembranças – e pelo conforto de ter na minha cozinha, até hoje, o fogão Wallig branco e laranja. E uma panela de tampa azul meio amassada, e o espremedor de laranja pesado e jurássico, e a balança (ainda mais pesada que o espremedor) para medir os ingredientes. Não que ela pesasse tudo, seguindo alguma receita. Se pesava, sempre chorava um pouquinho (ou mais!) de quase tudo.


Uma vez, já adulta, sentei do lado dela na salinha, munida de caderno e caneta – queria que ela me ensinasse algumas receitas.


- Qual receita tu quer?


- A do arroz com galinha.


- Aquece o óleo numa panela, põe um pouquinho de açúcar quando estiver quente, e coloca ali a galinha pra fritar. Depois junta a cebola, e depois o tomate...


- Quanta galinha, Vó?


- Quanta tu quiser fazer!


- E a cebola, o tomate, o arroz...?


E ela, com certa impaciência:


- Ah, umas duas cebolas e um tomate, e o arroz... bom, o arroz tu vê na hora.


- Mas vó, e se eu não souber ver na hora...?


E hoje eu cozinho assim como ela: aumentando as medidas, de olho. Até que funciona bem – não que a comida fique boa como a dela, nem tenho essa pretensão. E, de novo, não contenho um sorriso. A vó não usava receita porque não media o afeto – cozinhava como amava, de olho. De olhar. E hoje eu amo assim como ela: sem receita, às vezes chorando um pouquinho, e aumentando as medidas.  

 

_______________________________________________________________


E pra não deixar vocês só com água na boca, segue essa receita da vó que eu escrevi bem direitinho pra poder passar adiante!

 

Creme de queijo da Vó Aracy

(Porção para 2 ou 3 pessoas)

 

2 batatas grandes ou 3 médias

1 cebola pequena

1 tablete caldo knorr ou caldo legumes caseiro

2 colheres sopa manteiga (rasas)

1 saquinho queijo ralado

Salsinha picada

 

              1.           Colocar numa panela as batatas descascadas e picadas (podem ser graúdas), a cebola da mesma forma, e o caldo, com água que cubra tudo. Adicionar um pouco de sal. Deixar cozinhar - se a água baixar, completar.

              2.           Quando as batatas estiverem cozidas, desligar o fogo.

              3.           Bater no liquidificador

              4.           Colocar de volta na panela, acrescentando a manteiga e o queijo ralado até que se misture bem. Em fogo baixo pra não queimar!

              5.           Servir com a salsinha picada em cima



outubro 2025


12 comentários


Ariádini
12 de nov.

Essa memória tem gosto e tem cheiro. Dá gosto de ler essa escrita, Marieta! Linda a fotografia "de olhares"!

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Convidado:
17 de nov.
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Obrigada, Ari querida!!

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Juliana
06 de nov.

lindo, me imaginei naquela cozinha e senti o gosto do arroz com galinha que eu amava!!! Lindo o texto e quero todas as receitas q tu tem!!

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Convidado:
17 de nov.
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Feliz que tu tenha gostado, Juliana! E sim, te passo as receitas, bem do jeito dela... heheheh

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Fernanda Breda
03 de nov.

Que texto amado, Marieta! uma vó que não mede afeto, melhor lembrança!

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Convidado:
03 de nov.
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Obrigada pela leitura, Fernanda! Não media, mesmo <3 Beijo!!

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Leo Zimmer Saldanha
29 de out.

Que texto lindo :) agora já quero fazer o creme de queijo da tua vó

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Convidado:
03 de nov.
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hehehe - tu vai amar, Leo! Obri pela leitura, querido <3

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Convidado:
23 de out.

Oi Etinha querida ,adorei !

Equeceste do espinhaço de ovelha 😄, que eu amava.

Muito bom poder relembrar ,através das tuas palavras.

Como se diz ...cozinhar é um ato de amor ... por isso relembrar é trazer de volta esses momentos tão importantes ,na vida de cada um de nós.

Saudades tuas . Nos vemos dia 15.

Beijo enorme com muito carinho.

PS-Vou ler o outro conto.

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Convidado:
26 de out.
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Que bom que tu gostou! Sim, cozinhar é um ato de amor - sorte de quem sabe dar e receber, com açúcar e com afeto <3. Beijo grande!!

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