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Escrever

de Marguerite Duras

tradução Luciene Guimarães de Oliveira

Editora Relicário - 2021





Escrever, de Marguerite Duras. foi recentemente lançado pela Relicário (editora tão querida). É uma preciosidade de livro, tanto para quem já leu Duras, quanto para quem não leu ainda (recomendo). Ele é composto de vários ensaios, sendo o primeiro, que dá nome ao livro, o mais relevante. Ele é maravilhoso - a escrita sobre a própria escrita, seus impasses, suas necessidades. Duras isolava-se para escrever - tinha a sorte, o privilégio de dispor de uma casa que ela ocupava muitas vezes sozinha, casa que mais parece um corpo que a acolhe. O acolhimento, e também os incômodos, influenciam seu escrever. Suas palavras sobre a solidão são uma tentativa bem sucedida de dar nome a isso que acomete às mulheres - digo a elas, porque sobre isso poderia dar testemunho, pela escuta, pela própria experiência.

"Chega um momento na vida do qual ninguém escapa, e penso que seja inevitável, do qual não se pode escapar, em que tudo é posto à prova: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Menos as crianças. As crianças jamais são postas em questão. E essa dúvida cresce ao nosso redor. Essa dúvida é solitária, é a dúvida da solidão. Nasce daí, da solidão. Já é possível dar nome à palavra."

Ela escreve também sobre ser escritor, sobre o que é um livro, sobre o que é a escrita. Sobre o silêncio particular que habita a escrita:

"Um escritor é algo curioso. É uma contradição e é também um absurdo. Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer ruído."

"Um livro aberto é também a noite."

Na solidão da escrita, ela se encontra com uma mosca. Uma mosca morrendo. Como não lembrar de Clarice, de GH? Como não pensar em algo comum nessas escritoras, mulheres que foram contemporâneas, e que tentaram dar conta do real de suas experiências através da escrita?

"Sim. É isso, a morte daquela mosca se tornou esse deslocamento da literatura. Escrevemos sem saber. Escrevemos observando uma mosca morrer. Temos o direito de fazê-lo."

Duras, como Clarice, afirma seu direito de escrever literatura, ainda uma luta para uma mulher de seu tempo. E hoje? As mulheres se consideram no direito de escrever? Consideram-se capazes, conhecem sua potência? Conquistaram esse direito? Ainda é uma luta, ainda buscamos apoio, precisamos umas das outras. Ainda não é óbvio. Mas será.

Publicada em dezembro de 2021, no Instagram.


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