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Hannah


Se pudesse afagaria a menina que, sentada à mesa durante a ceia natalina, brincava com a comida no prato. Olhava para ela com condescendência. Ela não comia, mas brincava. Sofria. Se pudesse levantaria da mesa e bateria em retirada, silenciando o vozerio feliz da família. Pegaria a filha no colo, dizendo que estava tudo bem. Melhor: dizendo que ia ficar tudo bem. Sabia que, desde o triste vinte e três de novembro, a menina era só dor. Naquele momento, enquanto brincava com uma ervilha teimosa no prato, pelo menos parecia distraída. Arranjava o arroz todo de um lado. Do outro, a farofa. No meio, as ervilhas enfileiradas. Ainda que absorta, percebeu que estava sendo observada. Levantou os olhos, sorriu. A mãe devolveu-lhe o sorriso, perguntando: “o que está acontecendo aí, no teu prato?” A pequena assumiu um ar compenetrado: “são duas tribos inimigas, mãe, e no meio tem esse muro verde” – apontava para as ervilhas, “mas não consigo colocar...” A ervilha teimosa resistia a fazer parte do muro. A festa acontecia ao redor das duas. A mãe só tinha olhos para sua menina. Sofria adivinhando sua dor, mais ainda por se sentir responsável por essa dor. Quando ela crescesse, compreenderia? A menina olhou e, triunfante: “Consegui! Agora sim, tem uns de um lado, os outros do outro, o muro protege eles.” Uma lágrima grossa desprendeu-se dos olhos da mãe. Lembrou-se da frase: “Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”.




(Esse conto breve nasceu na oficina de Natal de Noemi Jaffe, na Escrevedeira, em dezembro de 2021.

A frase final não é minha, mas de Hannah Arendt. Expert em desafiar a escrita, era essa uma das tarefas propostas pela Noemi: que o texto contivesse a frase de um escritor à nossa escolha.)






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