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O que podemos compartilhar com nossos filhos adolescentes?


Estava na praia, aproveitando as férias, e ouvi de uma avó o depoimento sobre um assunto que me interessa há tempos, e muito. Ela contou que começou a assinar canais de esporte na televisão, para ter mais assunto para conversar com seu neto de dez anos, que adora futebol. Disse estar encantada com os campeonatos mundiais, que há jogos muito bons, empolgantes, e que desde então ela e o neto conversam pelo whatsapp, comentando as novidades, em que time estão os jogadores do mundo afora, gols, enfim.


A atitude dessa avó nos ensina algo muito precioso sobre as relações entre pais e filhos crescidos. Quando recebemos nossos bebês, mergulhamos com eles em outro mundo: o deles. Começamos a ouvir músicas para bebês, assistimos aos programas de televisão que eles gostam, lemos livrinhos infantis. E à medida que eles vão crescendo, esse outro mundo cresce e se altera, pois os bebês se tornam crianças, seus interesses mudam, eles conseguem se conectar nas atividades por mais tempo, entre outras tantas aquisições. Então passamos a assistir filmes inteiros ao invés de programas curtinhos - e assistimos a cada filme muitas (e muitas!) vezes -, nos embrenhamos em leituras um pouco mais extensas e complexas, também repetidamente, vamos ao teatro, ouvimos músicas infantis e jogamos junto com eles.


Mas chega um momento em que esse mundo compartilhado vai ficando para trás. Eles crescem ainda mais, aprendem a ler, ganham um telefone celular, um computador, e começam a ter seu próprio mundo de entretenimento. As crianças, agora púberes, não precisam mais dos pais para esses “afazeres”, antes compartilhados, pois adquirem alguma independência. Quando se anuncia a adolescência, então, eles passam a fazer questão de habitar um mundo bem diferente daquele dos pais, e os dispensam de vez, mostrando que dominam um novo território, outro. Tudo isso é libertador para ambos, pais e filhos: para os primeiros, que voltam a ter mais tempo para os entretenimentos que lhes interessam mais propriamente, o que é extremamente prazeroso; e para os segundos, que vão conquistando sua própria maneira de ser, configuram seus interesses e conquistam um pouco mais de privacidade. Mudanças muito bem-vindas, sem dúvida.


Mas será que a saída de cena que os pais fazem não poderia ser menos absoluta, menos radical? Talvez estejamos respondendo ao seu pedido de afastamento em espelho: se meu filho se afasta e já tem seu próprio mundo, aproveito para retomar o meu. Realmente, tomar certa distância dos filhos, nesse momento da vida em que as relações são tensas, provoca alívio. Mas é preciso cautela para não exagerar na dose. Pois, se alguma distância pode ser bem saudável (e é), precisamos estar atentos para que ela não tome dimensões extremas, para que não se transforme em abismo.


É muito comum ouvir os pais dizerem que os filhos adolescentes não respondem às suas perguntas sobre como foi o dia, a aula, o encontro com um amigo ou a festa. Trata-se de um tempo em que, muitas vezes, temos pouco em comum com nossos filhos – quantas vezes não os estranhamos quando os vemos de longe, ou dormindo e ocupando uma cama toda que antes parecia tão grande para eles! E é importante lembrar que viver sob o mesmo teto nem sempre diminui essa distância – a relativa proximidade física é insuficiente. Para os adolescentes, falar sobre si mesmos pode ser delicado, eles não sabem bem o que querem compartilhar com os pais, ou mesmo se querem compartilhar alguma coisa da sua recém conquistada privacidade.


Assim, escolher algum entretenimento comum pode ser uma bela alternativa. Por que não assistir uma série que interesse às duas gerações? Arriscar-se a ouvir as músicas que eles gostam, ver algum dos milhares de vídeos do youtube que os mantêm presos na telinha do celular, entender como funciona o jogo que eles não param de jogar? Se eles vivem de fones de ouvido acompanhando séries, jogos e canais do youtube, quem sabe deixamos de reclamar do que não entendemos, e perguntamos o que eles estão ouvindo com tanto interesse? Se eles cresceram conosco, sob nossa influência, deveríamos dar um voto de confiança para o seu gosto, e nos interessarmos pelas coisas que os divertem.


O importante é perceber que, se ainda temos muito o que ensinar a eles, também eles ainda têm muito a nos ensinar. E para que essa transmissão seja possível, precisamos conversar, precisamos falar a mesma língua. Parece óbvio... #sóquenão. E para isso, mais uma vez, eles precisam de nós, precisam da nossa manifestação de genuíno interesse pelo mundo deles. É a partir desse interesse por algo comum que podemos construir a ponte que liga nossos mundos. Ponte que vamos poder usar sempre que for preciso, nós e eles, para aquelas visitas que fazemos às pessoas amadas que já estão distantes – mas ainda ao nosso alcance.


Publicada no Jornal Sul21 em fevereiro de 2017.

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